O SINDJUFE/MS, representado pelas coordenadoras Márcia Pissurno e Francine Linhares, e pela sindicalizada Patrícia de Lima, participou, neste sábado (22) e domingo (23), do Encontro Nacional de Saúde da Fenajufe.
Ocorrido em formato híbrido, o evento reuniu dirigentes da Federação Nacional e representantes de 21 sindicatos de base para um amplo debate sobre as condições de trabalho e saúde dos servidores do Judiciário Federal e do Ministério Público da União (MPU). Temas como saúde mental, assédio moral e os impactos do avanço tecnológico na rotina dos trabalhadores do setor foram as pautas centrais nos dois dias de Encontro.
Restrição ao auxílio-saúde e impactos na qualidade de vida
Durante a abertura do encontro, foram discutidos os Atos nº 16, 17 e 18 do Conselho Superior da Justiça do Trabalho (CSJT), que restringem o auxílio-saúde dos servidores da Justiça do Trabalho. Conforme amplamente divulgado, a Fenajufe protocolou Procedimento de Controle Administrativo (PCA) junto ao CSJT solicitando a suspensão dos efeitos desses atos por 30 dias, até decisão final.
A assessora Vera Miranda destacou a preocupação com a saúde no serviço público, mencionando que a “modernização conservadora” da tecnologia nas administrações tem sobrecarregado os servidores, aumentando as metas e demandas de trabalho. Segundo ela, a redução do quadro de pessoal e a intensificação das condições laborais têm causado um cenário de precarização que resulta em elevados índices de adoecimento e mal-estar. Para enfrentar essa realidade, Vera defendeu a criação de uma política pública abrangente de Qualidade de Vida no Trabalho (QVT), com regulamentações que protejam e valorizem os servidores. A Fenajufe pretende levar propostas sobre o tema ao Fórum Permanente de Gestão da Carreira dos Servidores do PJU no Conselho Nacional de Justiça (CNJ).
Saúde mental e desafios no ambiente de trabalho
A saúde mental dos servidores também foi um dos principais focos do evento. A professora Ana Magnólia apontou três dimensões responsáveis pelo adoecimento dos trabalhadores: discursos tirânicos, atos de violência como humilhação e intimidação, e a ausência de espaços de escuta. Segundo a especialista, essa cultura de silenciamento no sistema de justiça resulta em uma espécie de “servidão voluntária”, na qual os servidores se submetem a situações prejudiciais para evitar conflitos e adoecimento.
O médico Pedro Tourinho reforçou que o impacto do ambiente de trabalho na saúde mental da população é imenso, alertando para o crescimento do número de afastamentos devido a problemas psicológicos. Ele ressaltou que a discussão sobre saúde mental tem ganhado visibilidade não por uma percepção humanista, mas pelo caráter devastador que esse cenário impõe aos processos sociais.
Assédio moral e o avanço tecnológico
O psicólogo Arthur Lobato falou sobre os impactos do assédio moral no serviço público, associando o fenômeno a fatores como crises de identidade profissional, metas inatingíveis e modelos de gestão baseados no estresse e no individualismo. Segundo Lobato, a pressão por produtividade e os ataques midiáticos ao funcionalismo têm contribuído para o aumento de transtornos como depressão, ansiedade e esgotamento mental.
A analista judiciária Karla Valle abordou os impactos do avanço tecnológico no Judiciário, especialmente após a pandemia. Embora reconheça a tecnologia como uma conquista, Karla alertou para os riscos da “telepressão”, uma realidade na qual servidores são pressionados a responder mensagens e demandas fora do expediente, prejudicando sua saúde e bem-estar.
Políticas de saúde e a precarização do trabalho
O último dia do encontro foi dedicado à discussão de políticas de saúde para os servidores do PJU e MPU. A servidora Mara Weber criticou o modelo produtivista imposto ao serviço público, que prioriza resultados em detrimento da valorização do trabalho humano. Segundo ela, o excesso de exigências, o uso intensivo de tecnologias e a hiperconexão têm gerado efeitos negativos como adoecimento, medicalização e, em casos extremos, suicídios no ambiente de trabalho.
Mara também questionou a implementação de novas tecnologias pelo CNJ, como PJe, eproc, ChatGPT e inteligência artificial, sem diálogo com entidades representativas e sem avaliação dos impactos na saúde dos servidores. Ela citou uma pesquisa da Fenajufe em parceria com a Universidade de Brasília (UnB), realizada entre 2018 e 2019, que evidenciou os benefícios de um modelo de gestão coletivista, baseado em decisões compartilhadas, metas realistas e menor nível de estresse entre os servidores.
Segundo a coordenadora do SINDJUFE/MS Francine Linhares, o Encontro de Saúde da Fenajufe evidenciou a necessidade urgente de políticas públicas que garantam melhores condições de trabalho e saúde para os servidores do Judiciário Federal. “É urgente que todos os sindicatos estejam unidos para ações conjuntas que realmente sejam voltadas para a saúde da categoria”, indica.
Patrícia afirma que participar do encontro promovido pela Fenajufe, foi uma experiência marcada por sentimentos antagônicos. “De um lado, me senti acolhida ao perceber que inúmeros servidores públicos vivenciam as mesmas dores e desafios que eu enfrento diariamente — ou melhor, que eu sobrevivo. Por outro lado, fui profundamente tomada por uma indignação ainda mais intensa diante da recorrente injustiça, da impunidade, da revitimização, da segregação daqueles que denunciam e, sobretudo, da manifesta inaptidão da Administração Pública em lidar com essas situações de forma eficaz e humanizada”.
A sindicalizada do SINDJUFE/MS relata que deixou o encontro “com uma certeza inabalável: o combate ao assédio moral e sexual no serviço público não é apenas urgente, mas inadiável. É um compromisso inegociável que deve ser assumido por todos os servidores, independentemente de sua esfera ou instância de atuação. Mais do que nunca, é imperativo estabelecer políticas concretas e incisivas para a erradicação dessas práticas abusivas, bem como garantir o acolhimento digno às vítimas, que, frequentemente, padecem de forma silenciosa, solitária e marcada por um sofrimento que corrói sua dignidade e sua saúde mental”.
“O SINDJUFE/MS é combativo quando o assunto é assédio moral no PJU e está integrado nas comissões e grupos dos tribunais do Mato Grosso do Sul que tratam sobre o tema. A mobilização coletiva é fundamental para enfrentar o assédio moral, a sobrecarga de trabalho e os impactos negativos da tecnologia, visando a construção de um ambiente de trabalho mais saudável e sustentável”, finaliza Márcia Pissurno.